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O que é que os enfermeiros portugueses têm para gostarem tanto deles?

7 min. 16.04.2020

“Espero que não se importem se eu mencionar em particular dois enfermeiros que ficaram ao meu lado quando as coisas poderiam ter dado para o torto. São a Jenny da Nova Zelândia e o Luís, de Portugal." As palavras são de Boris Johnson e, não só reforçam a ideia de que os enfermeiros portugueses são muito valorizados em Inglaterra, como ajudam a explicar o número, cada vez maior, de profissionais que decidiram emigrar para este país.

Dos 18 mil enfermeiros portugueses a trabalhar no estrangeiro mais de metade está no Reino Unido, o destino de aproximadamente 2.000 pedidos de emigração recebidos pela Ordem dos Enfermeiros em 2019.

Mas se os salários mais altos e melhores hipóteses de progressão na carreira ajudam a explicar a opção dos enfermeiros portugueses por Inglaterra, o que será que leva o trabalho destes profissionais portugueses a ser tão reconhecido no país?

Numa reportagem da TSF, a resposta surgiu na primeira pessoa.

 Uma enfermeira e muitos prémios

Foi a falta de oportunidades profissionais que levou Sílvia Nunes a trocar Vila do Conde por Thetford, uma pequena cidade 130 quilómetros a nordeste de Londres, em 2014. A enfermeira de 35 anos ensaia uma primeira explicação: "Os enfermeiros portugueses são muito profissionais e cuidadosos. Para além disso, temos uma formação académica muito sólida, talvez seja isso que nos distingue".

Mas se uma "formação mais aprofundada" do que a dos ingleses explica parte do segredo, as características típicas de um português podem completar a resposta: "Estamos mais preparados para enfrentar as adversidades do dia-a-dia, do que colegas formados em Inglaterra", acrescenta Sílvia Nunes.

A enfermeira conta que "toda a gente reconhece que os enfermeiros portugueses são muito bons" e acrescenta que, em Inglaterra, socialmente, "a profissão é mais respeitada, ou reconhecida, do que em Portugal. No trabalho não tenho nada que dizer nem de colegas nem dos chefes. Valorizam o meu trabalho e ajudam a melhorar naquilo em que somos mais fracos."

A vila condense de 35 anos fala por experiencia própria: em 2019, recebeu o prémio de melhor enfermeira do Reino Unido na área da inovação, um ano antes tinha sido considerada a melhor enfermeira do Leste de Inglaterra.

 

Formação sólida faz a diferença

"A profissão é mais valorizada, mas este não é um contexto perfeito", acrescenta a enfermeira Marlene Gonçalves lembrando que "como em qualquer lado há coisas que não funcionam bem".

Cansada de trabalhar a recibos verdes num hospital privado, a enfermeira lisboeta decidiu, em 2014, rumar a Telford, uma cidade com mais de 140 mil habitantes no norte de Birmingham. "Quando disse que ia emigrar ofereceram-me um contrato efetivo, mas a decisão já estava tomada", recorda Marlene Gonçalves.

A enfermeira reconhece que a formação técnica e académica sólida é uma das características que distingue os enfermeiros portugueses dos colegas ingleses, mas não é a única.

"A nossa formação marca a diferença também porque é mais voltada para o paciente. A pessoa que está à nossa frente é muito mais do que o equipamento a que está ligada ou a documentação que é preciso preencher", assegura Marlene Gonçalves.

O bloco operatório em que trabalha foi transformado para receber doentes com Covid-19. A enfermeira, de 34 anos, conta que também aqui os portugueses se destacam: "Quando há alguma necessidade premente, se houver um enfermeiro português, vai ser ele que vai ficar com essa pessoa que está mais doente."

Em Inglaterra, a formação de um enfermeiro demora três anos. Em Portugal a licenciatura em enfermagem tem a duração de quatro anos. Dois semestres que na opinião de Marlene Gonçalves, "fazem toda a diferença quer nas relações interpessoais, quer no domínio das técnicas clínicas".

 

Ovos de chocolate e aplausos

Quando Marlene emigrou para Inglaterra não foi sozinha. Com ela seguiu o marido André, um enfermeiro que por estes dias também está na linha da frente no combate à pandemia. "Não recebi os primeiros doentes porque estava de quarentena preventiva, mas já voltei ao trabalho na unidade de cuidados intensivos."

André confirma que os mais de dez enfermeiros portugueses a trabalhar no centro hospitalar de Telford se destacam pela proatividade. "Muitas vezes quando os médicos chegam para fazer algo, a tarefa já está feita."

"Temos mais competências técnicas. Podemos fazer colheitas de sangue, acessos endovenosos, etc. A exigência das nossas universidades reflete-se quando chegamos ao mercado de trabalho", explica André Gonçalves, acrescentando, no entanto, que a formação contínua é uma aposta mais forte em Inglaterra.

"Recentemente terminei a especialização em cuidados intensivos, que foi integralmente paga pelo hospital e feita durante o horário de trabalho. Algo impensável em Portugal onde muitas vezes temos que pagar as formações e utilizar o nosso tempo livre para aprender."

 

Brexit, agradecimentos e saudade

Apesar de nunca ter sentido o seu lugar em risco no Sistema Nacional de Saúde inglês, André Gonçalves sublinha que as declarações elogiosas de Boris Johnson a dois enfermeiros estrangeiros podem "ter afastado alguns medos, até por comentários que tenho ouvido. Este agradecimento - do ponto de vista político - pode ter acalmado ânimos".

Marlene Gonçalves lembra a importância da mão-de-obra imigrante no Reino Unido: "Os elogios são sempre bons e dão-nos força, mas os enfermeiros portugueses - e de vários países - são fundamentais para o funcionamento da saúde britânica. Até porque as universidades inglesas não formam enfermeiros em quantidade suficiente para suportar o Serviço Nacional de Saúde britânico."

"Neste momento nem se fala do Brexit, mas não penso que a saída da União Europeia seja um problema para os enfermeiros", resume Sílvia Nunes.

Os três enfermeiros ouvidos pela TSF, têm ainda mais uma coisa em comum. Com filhos já nascidos do outro lado da mancha não pensam regressar a Portugal.

"Temos saudades da família e do país, mas não está no nosso horizonte nem sei se algum dia estará", assegura Marlene Gonçalves. Já Sílvia Nunes mostra-se mais cautelosa. "Não penso regressar a Portugal, não está fora de hipótese, mas por enquanto não está em cima da mesa."

 

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